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Caórdico
Presente e Futuro
*Por Oscar Motomura
Quão naturais são as estruturas
que tentam trazer ordem à vida em sociedade? Colocando de
outra forma a questão, fica melhor: quão não-natural,
artificial, “forçada” são essas estruturas? Até que ponto essa
não-naturalidade acaba comprometendo significativamente a
eficácia das organizações e afetando a motivação das pessoas?
Até que ponto a forma de “provocar ordem” ou “assegurar
ordem/impedir o caos” vem obstruindo o espírito humano em sua
manifestação plena?
Até que ponto estruturas mecanicistas (que
pressupõem que a organização seja uma máquina e não um
organismo vivo) “quadrificam” as pessoas, fragmentam as
relações, colocam muros entre as pessoas, limitando a própria
ação das organizações empresariais e governamentais no
contexto maior?
Até que ponto nas escolas e universidades a
própria evolução das crianças e jovens fica “não-natural” e
muito aquém das possibilidades em conseqüência de estruturas
arcaicas, limitadoras, ineficazes?
Ao trazer essas e muitas
outras questões de essência à mesa de debates, em nossos
programas para executivos da alta administração de
organizações privadas e públicas, temos como objetivo fazer os
participantes pensarem. Pensarem profundamente. Visando chegar
ao âmago das questões. Evitar que fiquem no superficial, no
periférico.
Em nossos programas, não damos receitas. Pelo
contrário, a idéia é resgatar a capacidade de pensar com a
própria cabeça. É criar soluções sob medida. É estar evoluindo
sempre. É buscar o que funciona. É não ficar preso em
conceitos simplistas de certo ou errado dentro de arcabouços
mentais do passado.
É nesse contexto que trabalhamos sobre o
conceito de “caórdico” com os executivos participantes, ao
tratarmos do tema estrutura e organização no contexto do fazer
acontecer. Fazemos os participantes cotejarem suas próprias
premissas com as subjacentes ao caórdico. Fazemos com que
identifiquem o que gostam, o que rejeitam; o que aplicariam em
suas organizações e o que não; as resistências que a cultura
vigente criaria ao conceito. Há muito diálogo, muita
discussão... Nesses diálogos, as premissas, crenças, “teorias”
de cada participante vêm à tona. Sem disfarces. Todos estão
pensando...
Traduzimos o livro de Dee Hock para o português e
nossos participantes têm levado o debate para suas
organizações. Na medida em que nossos programas sobre inovação
em gestão atingem cerca de 100 executivos de alta
administração e 500 executivos de média administração por mês,
totalizando um fluxo de 5 a 6 mil executivos de 27 Estados
brasileiros por ano, não é pouco o número de pessoas que têm
levado o debate sobre o caórdico para suas respectivas
organizações – em empresas privadas ou entidades
governamentais.
Recentemente, em março deste ano, tivemos a
presença de Tom Hurley conversando com cerca de 300 executivos
(todos no programa de continuidade anual de nosso carro-chefe,
o APG) sobre o potencial do conceito de caórdico para o
futuro. A receptividade às idéias tem sido grande. E
continuamos a evoluir nesse grande debate. Nenhum programa que
trate de inovação em gestão pode deixar o conceito de caórdico
de fora.
Por que o caórdico é importante hoje?
Em nossa
opinião, como especialistas em inovação em gestão, as
organizações devem dar atenção prioritária ao conceito de
“caórdico” em função dos seguintes pontos:
-
Escala
Na medida em que atingimos uma população mundial de
6 bilhões de pessoas, num mundo cada vez mais interconectado,
está cada vez mais clara a idéia de que nenhum tipo de
estrutura mecânica, top-down, baseada em controles, tem
condições de ser eficaz. Nesse nível de escala, só dá para
imaginar organizações biológicas guiadas por grandes
princípios e que contem com todo o potencial que as pessoas
possuem – de pensar, de criar e de se auto-organizar.
-
Democracia Plena
Tanto em empresas, como em nações, o
conceito de democracia evolui passo a passo com a evolução das
tecnologias. A organização que toma conta de si, a sociedade
que toma conta de si, igualdade, ênfase em cooperação, todos
servindo a todos. O conceito de caórdico tem tudo a ver com
esses conceitos. É o caminho para tangibilizar o verdadeiro
conceito de democracia e de Humanidade. Pela primeira vez na
História...
-
Expressão Humana
As estruturas mecânicas, padronizantes,
limitativas, nunca conseguiram lidar com a questão da
motivação humana de forma adequada. Sempre houve limitações de
base, por princípio. A fonte mais legítima de motivação – o
espaço para criar – sempre esteve sob controle, dentro de
espaços reduzidos, dentro de padrões impostos, não-naturais.
As estruturas caórdicas têm grande potencial para fazer a
criatividade humana transcender os atuais limites. Na verdade,
se não contaminarmos os princípios do caórdico com os medos
inerentes aos processos de gestão baseados em controles, não
haverá limites para o que o ser humano poderá criar...
-
Valores de Essência, hoje
Autonomia, liberdade, respeito –
valores que todos valorizam cada vez mais genuinamente – a
verdadeira liberdade, o verdadeiro respeito humano – estão
muito mais em linha com os princípios do caórdico do que com
as velhas formas estruturais. Nas estruturas tradicionais,
esses valores estiveram sempre “em compressão”, com espaços
reduzidos, limitados. Por natureza, por princípio de um lado
(controle se faz por limitação do espaço de ação livre...). De
outro lado, por abuso de poder, fazendo emergir os
“subterrâneos” da organização – a politicagem, os acordos
não-éticos, a falta de transparência etc.
-
Era do Conhecimento
Numa era em que todo o conhecimento
humano estará à disposição das pessoas que precisarem chegar a
ele, parece fundamental que o espaço para as pessoas esteja
presente. Que ele efetivamente exista. Caso contrário, seria
um enorme desperdício do potencial das pessoas. Os princípios
do caórdico asseguram esse espaço. As estruturas tradicionais
que fragmentam o trabalho – por princípio limitam o espaço, na
medida em que reduzem a área de ação (sob a premissa de que
seus ocupantes não têm o conhecimento necessário, não têm
potencial apropriado para criar o necessário). A premissa é a
de que os ocupantes não são capazes de pensar; estão lá para
executar o que foi pensado por outros, “os superiores”. No
caórdico honra-se a pessoa que pensa. Honra-se todos.
O
potencial do caórdico no futuro
Em função de tudo que temos
trabalhado nestes últimos anos com o conceito de caórdico – em
nossos programas sobre gestão avançada e em trabalhos de
aplicação em organizações privadas e públicas – vemos alguns
desafios à frente:
-
Resistências ao “radicalismo” do conceito
Em princípio, a
maioria dos executivos vê no conceito do caórdico enorme dose
de bom senso e pragmatismo. Entretanto, tem medo do extremismo
inerente e busca “amenizar” os princípios introduzindo
expressões como “sempre que possível” (ao invés de “sempre”)
ou “evitar quando apropriado” (ao invés de “nunca”). Um grande
desafio à frente é manter a pureza do conceito. É evitar que
os princípios sejam contaminados com “cuidados” típicos do
“velho sistema” (baseado em controles). Um grande desafio é a
coragem de implantar o conceito inteiro – sem remendos e sem
concessões.
-
Capacidade de abstração
Definir princípios que sejam
realmente de essência exige excepcional refinamento da
capacidade de abstração. É também a qualidade da capacidade de
abstração que fará essas pessoas definirem princípios que as
que vão aplicá-los (pessoas “normais”, funcionários em geral),
consigam entender (o espírito dos princípios, mais do que a
“letra” deles). O desafio à frente é o de termos muito mais
pessoas em nossas organizações e na sociedade com o nível de
capacidade de abstração necessário. Em função do tipo de
educação que pessoas em posição de liderança vêm recebendo
(pouca atenção à filosofia, por exemplo), é insuficiente a
quantidade de pessoas capazes de trabalhar com princípios de
essência. O desafio é transformar mentes treinadas em lidar
com procedimentos em mentes capazes de criar princípios.
-
Ego e propósitos reducionistas
Há princípios e
princípios... Alguns voltados à realização de propósitos
individualistas, egoísticos. Outros mais voltados a propósitos
voltados ao bem comum, onde todos consigam auferir benefícios.
Num mundo repleto de contradições, paradoxos e desequilíbrios
– um mundo hoje caótico – a aplicação do conceito de
“caórdico” exige trazer à mesa o tipo de ordem que se quer a
esse todo maior. Uma ordem que seja benéfica a todos, sem
exclusões. Esse é outro grande desafio: o caórdico duradouro,
universal, exige elevado nível de consciência. Em outras
palavras, o caórdico em partes, em baixo nível de consciência,
pode até funcionar. Por algum tempo. Mas, mesmo nesse pouco
tempo, tudo que se consegue é míope, efêmero e ilusório. No
sucesso da parte, ele estará contribuindo para o caos do todo
maior e não para a ordem.
-
Princípios Universais
Em última instância, os princípios
que darão fundamento a todo sistema caórdico serão de caráter
universal. E, como tal, deverão estar baseados em verdades
universais. Nesse sentido, o maior desafio para o futuro
continua sendo nossa eterna busca das verdades maiores. Na
verdade, a verdade, o grande princípio que rege tudo ao nosso
redor. A mesma verdade que rege o microcosmo e o macrocosmo. O
grande desafio é estarmos todos – como humanidade – buscando
essa grande verdade. A ciência, a metafísica, todos os ramos
do conhecimento unidos nesse processo. É nossa capacidade de
abstração que fará os princípios maiores serem traduzidos para
o campo das organizações, empresas, nações, o todo da
sociedade. É nessa coerência que reside a ordem que todos nós
buscamos.
-
Evitar o caórdico como modismo
O conceito de caórdico não deve ser fragmentado. Seria um contra-senso. Um
paradoxo. Mais do que uma fórmula, uma receita, um “modismo”,
o caórdico deverá ser visto como uma forma nova de se viver.
Mais livre. Mais genuína. Mais verdadeira.
Esse é outro grande
desafio para o futuro. Evitar que o conceito fique mais forte
do que sua essência. Porque, em termos de essência, é o ideal
de vida que sempre buscamos que a inspira. E não o inverso.
É
um extraordinário pretexto para mergulhar mais fundo na busca
da criação da sociedade ideal, do mundo ideal para todos.
Afinal, nosso grande propósito – de todos nós – é criar,
juntos, o próprio paraíso na terra...
Em nossa visão, o caos é
o mundo fragmentado em que vivemos. A Humanidade não tem outra
saída se não a de buscar uma nova ordem. Uma ordem que vem da
integração, da harmonia de todos. Uma ordem dinâmica, em
contínua evolução. Sempre em busca de patamares mais elevados
de consciência.
Nessa visão, não seria a concepção do caórdico
um extraordinário pretexto para mergulharmos, todos nós, mais
fundo no processo de criação da sociedade ideal para todos?
Não estaria aí o propósito de vida de cada um de nós?
www.amana-key.com.br •
motomura@amana-key.com.br
*Oscar
Motomura, diretor geral da Amana-Key, empresa
especializada em inovações radicais em gestão.
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